Às vezes, o óbvio também precisa ser dito. Precisa ser repetido, esfregado na memória, lembrado em voz alta. Porque, no meio do cansaço, da cobrança, das derrotas acumuladas e das comparações injustas, até o óbvio some. E quando ele some, a gente esquece quem é, de onde veio e tudo o que já atravessou. Por isso, te convido a embarcar comigo nessa reflexão simples, quase primitiva, sobre existência, resistência e sobre a primeira vitória que ninguém aplaudiu, mas que mudou tudo.
Antes de qualquer diploma. Antes de qualquer fracasso. Antes de qualquer pessoa duvidar de você, ou você de si mesmo.
A biologia explica: após uma relação sexual, cerca de 200 a 300 milhões de espermatozoides são lançados numa corrida absurda, desigual, silenciosa. Todos nadam. Quase todos perdem. Alguns poucos chegam perto. Um vence.
A ciência chama isso de fecundação. A vida chama de milagre. A autoestima, quando anda esquecida, finge que isso não significa nada.
Mas significa tudo. Você correu a primeira corrida da sua vida sem olhos, sem pernas, sem mapa, sem torcida. Correu sem saber que estava correndo. E venceu. Enquanto milhões ficaram pelo caminho, você chegou. Não por mérito, não por esforço consciente, não por estratégia. Chegou porque, de algum jeito inexplicável, insistiu.
E aí a vida começou. Depois disso, você correu outras corridas. Sem educação suficiente, segundo alguém. Sem certificado. Sem dinheiro. Sem ajuda. Sem sobrenome importante. Sem padrinho.
E mesmo assim, venceu algumas. Sobreviveu a outras. Se levantou de quedas que ninguém viu. Engoliu choros que não viraram post. Perdeu gente. Perdeu fé. Perdeu rumo. Mas não perdeu tudo. Porque quem vence uma corrida sem pernas não nasce para desistir quando já tem sonhos.
Hoje você olha ao redor e pensa em parar. Porque agora dói. Porque agora pesa. Porque agora cansa. Porque agora parece injusto demais. Mas me diga: o que te faz pensar que vai perder agora?
Agora que você tem olhos. Agora que você tem pernas. Agora que você tem planos, ideias, vontades e consciência. Você não desistiu no primeiro dia. Então por que desistiria agora?
Desistir agora não é descanso. É esquecimento. É esquecer que você já foi exceção antes mesmo de saber o que isso significava. É esquecer que o mundo pode até não acreditar em você, mas a vida acreditou primeiro.
Não falo de Deus de altar. Falo da força bruta da existência que te quis aqui.
Não importa o que você veja agora. Encare como desafio. Fracasso não apaga origem. Cansaço não anula vitória.
Talvez a vida seja só isso: lembrar todos os dias que você já venceu uma vez. E se venceu uma, pode vencer de novo.
Você que parou para ler isso: deixa eu te dizer uma coisa, sem gritar, sem promessa vazia, sem discurso de coach. Eu acredito em você. E, se serve de consolo, a biologia também acreditou. Você venceu desde o útero. O resto é continuação.

















































