Nossa cultura nos educou o suficiente para não querermos saber da vida dos nossos vizinhos. No mesmo bairro, mesma vizinhança e mais do que isso, no mesmo edifício, vivemos isolados, cada no seu canto, ou melhor, no seu apartamento, supostamente seguros, supostamente civilizados. No entanto, desconectados uns dos outros, sem vínculos que tornem viável algo simples, como uma carona ao médico ou a troca de uma lâmpada.
Esse isolamento tem consequências que vão muito além do incômodo. No Japão, em 2024, 37 mil pessoas que viviam sozinhas foram encontradas mortas em suas residências apenas no primeiro semestre, mais de 70% delas com 65 anos ou mais. Em alguns casos, os vizinhos perceberam a ausência só meses depois: uma das vítimas, em Tóquio, havia morrido há cinco meses¹. É o mesmo Japão em que Okinawa é considerada uma das blue zones da longevidade saudável. Viver muito não basta.
Por aqui, os números também chamam atenção. O último censo do IBGE revelou que mais de 17 mil pessoas residem sozinhas em Foz do Iguaçu e 6 mil são pessoas idosas. A vida moderna pressiona as pessoas a viverem nos centros urbanos em imóveis cada vez menores e, muitas vezes, mais sós.
O que sustenta esse isolamento é, em boa parte, uma ideia que aprendemos cedo: a de independência. Vivemos em uma cultura que nos ensinou a não depender de ninguém, que devemos nos virar sozinhos, que precisar de alguém é sinal de fraqueza e a necessidade de apoio como algo a ser negado. A falsa ideia de independência pode ser corrosiva e mortal. A autossuficiência é uma ilusão. Necessitamos uns dos outros e, ao mesmo tempo, também possuímos capacidades e conhecimentos possíveis de compartilhar. Saber pedir ajuda nos coloca em uma realidade mais colaborativa e amigável.
Uma pergunta fica ecoando: Como fortalecer redes de apoio para uma vida em comunidade mais conectada socialmente? Onde não haja vergonha em pedir um favor e retribuí-lo com uma torta de maçã ou um simples sorriso no rosto, sabendo que amanhã poderá ser minha vez de ajudar.
Será uma utopia querer transformar vizinhos em infraestrutura? Será que não está na hora de irmos um pouco além das relações superficiais do cumprimento conforme manda a etiqueta com um apressado “bom dia” no elevador? Será que não existem outras maneiras de organizar a vida além da opção padrão de cada um na sua unidade residencial, dentro de condomínios frios?
Sou uma entusiasta da ideia dos cohousings² ou moradias colaborativas. No entanto, não é a edificação física o que importa, mas viver com consciência, presença e conexão. Apoio mútuo beneficia a todos. Somos seres sociais e somos construídos a partir dos encontros com os outros. Por isso, mais que uma arquitetura para longeviver, precisamos melhorar os espaços que habitamos para tecermos juntos relações que acolhem, apoiam e caminham ao nosso lado.
Em algum momento, todos vamos precisar de alguém: para uma carona, um cuidado, uma companhia. A questão é se teremos construído, antes, as relações capazes de nos acolher. Não precisar de ninguém é uma ilusão que pode custar muito caro.
________
¹ https://www.theguardian.com/world/article/2024/jul/01/life-at-the-heart-of-japans-solitarydeaths-epidemic-i-would-be-lying-if-i-said-i-wasnt-worried?utm_source=chatgpt.com
² Do inglês: Collaborative Housing - moradia intencional e colaborativa que equilibra totalmente a privacidade individual com a convivência comunitária.
























