Chegou aquela época maravilhosa do calendário brasileiro em que, finalmente, todos os nossos problemas parecem ter solução.
A saúde vai melhorar. As filas vão acabar. A educação será valorizada. A segurança será reforçada. Teremos empregos, investimentos, infraestrutura, desenvolvimento, hospitais, escolas, asfalto e, dependendo do entusiasmo do candidato, talvez não sobre sequer um buraco para contar a história.
Não aconteceu nenhuma revolução administrativa. Nenhuma descoberta científica mudou a gestão pública. Tampouco surgiu dinheiro infinito nos cofres do Estado.
É muito mais simples.
Começou a campanha eleitoral.
A cada quatro anos ocorre esse fenômeno extraordinário. Pessoas que passaram meses ou anos convivendo tranquilamente com problemas conhecidos começam, repentinamente, a enxergá-los com impressionante nitidez.
Descobrem bairros esquecidos, encontram unidades de saúde com dificuldades, percebem problemas nas escolas, conhecem famílias vulneráveis e se indignam com situações que estavam exatamente no mesmo lugar muito antes de aparecer uma urna no horizonte.
É quase emocionante.
Mais emocionante ainda é descobrir que não apenas identificaram todos esses problemas, como também sabem resolvê-los.
De repente, o candidato a deputado torna-se especialista em saúde pública, educação, segurança, infraestrutura, geração de empregos, habitação, trânsito, turismo e desenvolvimento econômico.
Existe apenas um pequeno inconveniente nessa história chamado realidade.
O deputado que promete ser prefeito
Uma das distorções mais curiosas das campanhas eleitorais é assistir a candidatos ao Legislativo falando como se disputassem o comando de uma prefeitura.
"Vou resolver."
"Vou fazer."
"Vou construir."
"Vou acabar com isso."
"Vou garantir aquilo."
Calma.
Deputado não é prefeito.
Deputado estadual ou federal exerce uma função essencial, mas diferente. Legisla, fiscaliza, participa das discussões orçamentárias, articula políticas públicas, apresenta emendas e utiliza sua representação política para defender interesses da população.
Pode ajudar muito uma cidade. Pode ajudar pouco. Pode não ajudar absolutamente nada.
Depende da qualidade do mandato.
Mas não administra a Prefeitura.
A campanha eleitoral brasileira, entretanto, conseguiu inventar uma figura institucional extraordinária que não existe na Constituição: o deputado-prefeito-governador-secretário-ministro.
Ele legisla, administra, constrói, asfalta, contrata médico, melhora escola, resolve a segurança, gera emprego e, dependendo da empolgação diante das câmeras, provavelmente ainda consegue fazer chover.
E funciona.
Funciona porque prometer é infinitamente mais fácil do que explicar competências.
Dizer "vou resolver" cabe perfeitamente em um vídeo de trinta segundos. Explicar como funciona a administração pública, de onde virão os recursos, qual ente federativo possui determinada responsabilidade e quais instrumentos um parlamentar realmente terá para interferir naquele problema é bem menos interessante eleitoralmente.
A promessa vende melhor que a realidade.
Onde vocês estavam?
Talvez esta seja a pergunta que deveríamos fazer com maior frequência durante uma campanha eleitoral.
Onde vocês estavam?
Se determinada situação da saúde pública é tão absurda agora, onde estava essa indignação seis meses atrás?
Se determinado bairro está tão abandonado, quantas vezes o candidato esteve lá quando não havia câmera?
Se aquela escola enfrenta problemas tão graves, quando exatamente eles passaram a incomodar?
Se aquela comunidade precisava desesperadamente de representação, por que ela somente ganhou importância quando passou a representar votos?
Não estou dizendo que alguém perde o direito de defender uma causa porque não a defendia anteriormente. Pessoas conhecem problemas, mudam de opinião e assumem compromissos legítimos.
O que merece desconfiança é outra coisa.
É a indignação que possui calendário eleitoral.
Há problemas que existem há décadas, mas alguns políticos parecem desenvolver a extraordinária capacidade de enxergá-los a cada quatro anos.
Curiosamente, a visão melhora justamente quando aparecem urnas no horizonte.
E os que já tiveram oportunidade?
Existe ainda uma categoria mais interessante.
São aqueles que já estiveram no poder.
Já foram vereadores, deputados, secretários, assessores, ocuparam cargos públicos ou circularam durante anos pelos corredores onde decisões são tomadas.
E então reaparecem em campanha apresentando-se como portadores da solução para problemas que já existiam enquanto eles próprios tinham poder, influência ou mandato.
Nesse caso, talvez devêssemos parar de perguntar:
"O que você pretende fazer?"
E começar a perguntar:
O que você fez quando teve oportunidade?
Essa pergunta é muito menos confortável.
Promessas pertencem ao futuro e, por isso, ainda não podem ser cobradas.
O histórico pertence ao passado.
E pode ser conferido.
Talvez seja justamente por isso que campanhas gostam tanto de falar sobre amanhã.
O ontem costuma ser inconveniente.
O dinheiro que ganha dono
Também chegou a temporada em que dinheiro público começa misteriosamente a ganhar sobrenome.
"Eu trouxe milhões para Foz."
"Eu mandei recursos."
"Eu consegui dinheiro para a cidade."
É evidente que um parlamentar competente deve articular recursos, defender sua região e utilizar os instrumentos orçamentários disponíveis para beneficiar a população. Isso faz parte de um bom mandato e merece reconhecimento.
Mas convém lembrar uma pequena informação que frequentemente desaparece dos materiais de campanha.
O dinheiro não é do deputado.
Ele não vendeu a própria casa.
Não retirou milhões da conta bancária.
Não organizou uma vaquinha entre familiares.
É dinheiro público.
Nosso dinheiro.
O parlamentar pode ter mérito por articulá-lo e direcioná-lo. O que não deveria acontecer é transformar dinheiro público em favor pessoal e depois apresentá-lo ao eleitor como demonstração de generosidade.
Cumprir uma função pública não transforma ninguém em benfeitor da população.
O problema vira cenário
Existe ainda uma parte dessa engrenagem que considero especialmente incômoda.
Problemas reais começam a virar matéria-prima eleitoral.
A fila da saúde vira vídeo.
O buraco vira fotografia.
A escola problemática vira discurso.
A pobreza vira cenário.
A indignação vira legenda.
E o cidadão, muitas vezes, vira figurante.
Tudo cuidadosamente registrado.
O candidato chega, olha, lamenta, aponta o problema, promete solução e vai embora levando consigo aquilo de que realmente precisava naquele momento: conteúdo.
A pessoa continua lá.
O problema também.
É evidente que denunciar dificuldades faz parte da política e pode produzir pressão legítima sobre o poder público. O problema começa quando a denúncia não é instrumento para solucionar uma realidade, mas cenário para construir uma candidatura.
Existe uma diferença enorme entre dar visibilidade a um problema e precisar que o problema continue existindo porque ele rende politicamente.
Mas a culpa não é apenas deles
Seria confortável terminar este texto dizendo que políticos fazem isso porque são oportunistas.
Não seria suficiente.
Eles fazem porque funciona.
Existe uma parcela de responsabilidade que pertence a nós, eleitores.
Ainda procuramos salvadores.
Ainda nos impressionamos com quem "trouxe dinheiro".
Ainda confundimos atribuições.
Ainda aceitamos promessas que sequer pertencem à competência do cargo disputado.
Ainda trocamos histórico por discurso.
E, principalmente, esquecemos.
Esquecemos quem apareceu somente na eleição anterior.
Esquecemos o que prometeu.
Esquecemos como votou.
Esquecemos onde esteve durante os quatro anos seguintes.
E então, quando começa uma nova campanha, recebemos novamente os mesmos personagens, ou versões renovadas deles, apresentando os mesmos problemas como se tivessem acabado de descobri-los.
A amnésia do eleitor é um dos maiores patrimônios do político profissional.
Sem ela, muita carreira não sobreviveria a duas eleições.
Por isso, talvez a pergunta mais importante deste período eleitoral não seja o que cada candidato promete fazer.
Pergunte onde estava.
Pergunte o que já fez.
Pergunte como pretende fazer.
Pergunte se aquilo que promete pertence realmente às atribuições do cargo que pretende ocupar.
Pergunte de onde virá o dinheiro.
Pergunte como votou quando já teve mandato.
Pergunte quem financiou sua caminhada política.
Pergunte quem estará ao seu lado depois da eleição.
Promessa é fácil.
Vídeo é fácil.
Discurso indignado é fácil.
Difícil é sustentar quatro anos de coerência quando não existe câmera ligada.
Nos próximos meses veremos candidatos dizendo que conhecem nossos problemas e que sabem exatamente como resolvê-los.
Alguns talvez realmente conheçam.
Alguns talvez realmente estejam preparados.
E alguns provavelmente farão bons mandatos.
Mas não precisamos acreditar em nenhum deles antecipadamente.
Precisamos fiscalizá-los.
Porque talvez o Brasil não precise de tantos candidatos prometendo resolver todos os nossos problemas.
Precise apenas de eleitores com memória suficiente para lembrar quem só descobriu que esses problemas existiam quando voltou a precisar do nosso voto.















