Outro dia me disseram, mais de uma vez, quase como um espanto coletivo: “Ed, eu não sei como você aguenta tanta coisa.”
Ataques, processos, denúncias, ameaças veladas, exposição. Como se existisse uma resposta organizada, um manifesto interno, uma convicção lapidada. Não existe.
A verdade é que eu nunca parei pra pensar nisso direito. Nem no silêncio da madrugada, nem na terapia. Eu simplesmente faço. Não por vocação messiânica, não por amor abstrato à cidade, não por esse papo bonito de “bem comum” que fica ótimo em discurso, mas raramente sustenta alguém na vida real.
Eu faço porque faço. Porque quando vejo, já fiz.
E talvez isso incomode mais do que qualquer denúncia: o fato de não haver cálculo. Não tem estratégia emocional, não tem plano de autoproteção. Tem incômodo. Tem curiosidade. Tem indignação. Tem um limite que, quando ultrapassado, vira palavra.
O preço vem depois. Sempre vem. E não vem pequeno.
Mas junto com ele vem algo que ninguém consegue mensurar em planilha ou processo judicial: o encontro. Ser parado no mercado. No posto. Na rua. Receber mensagem de alguém que eu nunca vi, dizendo “obrigado”. Ou ouvir, quase como um sussurro de alívio: “você é necessário pra gente”.
Isso não me faz melhor do que ninguém. Também não me transforma em herói. Mas me faz útil.
E talvez seja isso. No fundo, bem no fundo, minha realização não está em vencer embates, nem em provar que eu estava certo. Está em saber que, em meio ao barulho, alguém se sentiu menos sozinho. Que uma pergunta foi feita quando todo mundo fingia não ver. Que alguém respirou aliviado porque pensou: alguém está falando.
Eu não sei até quando dá pra suportar. Não sei se um dia cansa de verdade. Não sei se vale sempre a pena.
Só sei que, enquanto eu puder ser útil, eu sigo. Sem discurso. Sem promessa. Sem glamour.
Com o peso real das consequências, e a estranha paz de quem sabe que, apesar de tudo, não está passando em branco.


















































