Há algo profundamente errado quando um artista confunde opinião política com autoridade moral. O vídeo publicado por Zezé Di Camargo na madrugada não é apenas um desabafo emocional, é um retrato fiel da radicalização que transformou divergência em ruptura e diálogo em traição, e eu, Ed Queiroz, sei muito bem o que é isso.
Zezé não se revolta com uma decisão editorial qualquer. Ele se revolta com a presença institucional do presidente da República na inauguração de um braço jornalístico de uma emissora privada. E, mais grave ainda, tenta transformar isso em um julgamento moral das filhas de Silvio Santos, como se elas tivessem cometido um pecado capital ao não pensar exatamente como o pai pensava.
Aqui é preciso parar e respirar.
Silvio Santos não construiu o SBT como um templo ideológico. Construiu como empresa, como meio de comunicação e como palco de convivência com todos os governos, gostando ou não deles.
Lula já esteve no SBT antes. Bolsonaro também. Presidentes passam. Instituições ficam. Jornalismo não é prêmio por afinidade política, é dever institucional.
Quando Zezé pede que seu especial de Natal não vá ao ar, ele não está defendendo valores. Está tentando impor um veto.
Está dizendo, ainda que indiretamente: ou vocês pensam como eu, ou não contem comigo. Isso não é coerência. É chantagem simbólica.
Zezé construiu sua carreira cantando para o país inteiro, pobres, ricos, lulistas, bolsonaristas, gente que vota, gente que nem acredita mais na política.
O público nunca foi homogêneo. Nunca será.
E é justamente por isso que soa tão contraditório ouvir um artista consagrado afirmar que não quer “decepcionar o povo brasileiro”, enquanto ataca uma emissora por dialogar com uma autoridade.
Democracia não funciona por afinidade emocional. Funciona por institucionalidade.
Eu, por exemplo, sou da área da comunicação e sei exatamente o trabalho que dá colocar uma produção de TV de pé. Existe planejamento, equipe, roteiro, contratos, investimento, prazo e responsabilidade com o público.
Um especial de Natal não nasce do nada, não é improviso nem peça descartável por discordância política. E, do mesmo modo, o jornalismo não tem lado, ou, pelo menos, não deveria.
Mesmo sabendo que existem veículos com viés político, o princípio básico continua sendo o mesmo: jornalismo não escolhe presidente por gosto; cobre, dialoga, registra.
Transformar a presença institucional de um presidente em afronta moral é infantilizar o debate público e reduzir a democracia a uma disputa de ressentimentos pessoais.
O gesto de Zezé não fortalece valores. Enfraquece pontes. Não defende o legado de Silvio Santos, pelo contrário, ignora justamente aquilo que ele mais dominava: a capacidade de conversar com todos, sem pedir carteira ideológica na porta.
E talvez seja essa a maior lição de tudo isso. Não sou inocente a ponto de acreditar que artistas não usam sua arte para influenciar pensamento, comportamento e cultura, sempre usaram, e isso é parte do jogo.
A arte comunica, conduz, provoca. Justamente por isso, quem ocupa esse lugar precisa entender o peso da própria voz.
Zezé Di Camargo não precisa abrir mão de suas convicções, ele poderia usar o espaço dado pelo SBT para propagá-la, assim como outros fazem sem estardalhaço.


















































