O Governo do Paraná implantou uma solução inédita no Brasil para auxiliar no combate ao câncer por meio da inteligência artificial.
Desde abril, o Hospital do Câncer de Londrina e o Hospital São Vicente, em Guarapuava, utilizam a plataforma Capricórnio para acelerar a identificação de terapias oncológicas personalizadas, reunindo informações clínicas dos pacientes e evidências científicas internacionais em um único ambiente de análise.
A ferramenta foi desenvolvida pelo Google em parceria com o Princess Máxima Center, da Holanda, e permite que médicos cruzem dados clínicos, mutações genéticas, testes de sensibilidade a medicamentos e respostas anteriores aos tratamentos com milhões de artigos científicos disponíveis na base PubMed.
Pesquisa mais rápida e personalizada
No Hospital do Câncer de Londrina, a adoção da tecnologia reduziu significativamente o tempo necessário para pesquisas científicas voltadas à tomada de decisão clínica.
Segundo o diretor médico da instituição, Bruno Henrique Bressanini de Almeida, análises que antes demandavam cerca de uma semana passaram a ser concluídas em aproximadamente uma hora.
A plataforma permite selecionar estudos específicos de acordo com características clínicas e genéticas de cada paciente, reunindo informações relevantes de forma rápida e organizada.
Após o levantamento dos dados científicos, equipes multidisciplinares discutem os resultados para definir as condutas terapêuticas mais adequadas.
De acordo com o chefe da Oncologia Clínica do hospital, Everton Germano Araújo Melo, o uso da ferramenta contribui para a redução do tempo de internação e das chances de complicações, ao apoiar uma medicina personalizada baseada em evidências científicas.
Casos clínicos apoiados pela IA
Entre os casos avaliados com suporte da plataforma está o de Ana Beatriz Carvalho, de 42 anos, que convive há três anos com um tumor originado em células do sistema neuroendócrino.
Após a identificação de três pequenas lesões no fígado, a equipe médica utilizou literatura científica específica para o perfil da paciente e decidiu manter a terapia principal associada à retirada das novas lesões.
Segundo os especialistas envolvidos, a decisão foi fundamentada em estudos que apontam benefícios dessa estratégia combinada. Para Ana Beatriz, a integração entre tecnologia e conhecimento médico representa um avanço importante para ampliar a qualidade de vida e a sobrevida dos pacientes oncológicos.
Em Guarapuava, um paciente acompanhado há mais de um ano por apresentar um câncer de origem desconhecida também teve o caso analisado com apoio do Capricórnio.
O oncologista Nelson Morozini relatou que a ferramenta identificou padrões associados à instabilidade genômica, contribuindo para a solicitação de exames genéticos mais direcionados e abrindo perspectivas para futuras estratégias terapêuticas, incluindo imunoterapia, caso a hipótese seja confirmada.
Tecnologia baseada em evidências globais
O Capricórnio reúne dados do PubMed, uma das maiores bases de pesquisas biomédicas do mundo, com mais de 35 milhões de artigos científicos.
Os conteúdos são disponibilizados na plataforma BigQuery, do Google Cloud, permitindo buscas semânticas capazes de localizar estudos relacionados ao contexto clínico dos pacientes mesmo quando não há correspondência exata de palavras-chave.
O objetivo é reduzir a distância entre descobertas científicas e sua aplicação prática nos tratamentos oferecidos à população. A plataforma funciona como ferramenta de apoio à decisão médica, mantendo a responsabilidade final das escolhas terapêuticas com os profissionais de saúde.
Expansão da inovação no Paraná
A implantação da tecnologia integra o programa Transforma IA, iniciativa do Governo do Paraná voltada à modernização dos serviços públicos por meio da inteligência artificial. Além da saúde, o programa contempla projetos em áreas como segurança pública, habitação, agricultura e educação.
Segundo o secretário da Inovação e Inteligência Artificial, Marcos Stamm, a intenção é estabelecer critérios para ampliar o uso da plataforma em outras unidades hospitalares do Estado.
O projeto também segue protocolos de governança, proteção de dados e conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), utilizando exclusivamente informações anonimizadas dos pacientes.
A escolha dos hospitais de Londrina e Guarapuava levou em consideração a atuação de referência em oncologia, a integração ao Sistema Único de Saúde (SUS) e a possibilidade de ampliar o acesso a tratamentos especializados no Interior do Paraná.

















