Uma publicação feita pelo PT do Paraná nesta segunda-feira (26), poucas horas depois do encerramento da eleição presidencial, provocou reação do senador eleito Deltan Dallagnol (Novo). Em uma imagem de fundo preto, o partido publicou em letras brancas a frase “Deltan, você é o próximo…”, acompanhada, logo abaixo, da tradução em inglês: “Deltan, you’re next”.
A mensagem foi interpretada por Dallagnol como uma ameaça. Em suas redes sociais, o ex-procurador da Lava Jato relacionou a publicação ao resultado das urnas e afirmou que o partido estaria mirando os quase 3 milhões de votos que recebeu no Paraná.
“Não deu nem 24 horas depois da eleição, o PT já ameaça os 3 milhões de votos que o Paraná confiou a mim”, escreveu.
A publicação surgiu no dia seguinte à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para a Presidência da República. Lula venceu Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno realizado neste domingo (25), com 64,2 milhões de votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio recebeu 59,8 milhões, ou 48,21%.
Apesar do tom adotado na peça publicada nas redes sociais, o PT do Paraná informou que a frase se refere à disputa jurídica envolvendo a candidatura de Dallagnol ao Senado e à intenção do partido de retomar, no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o recurso que questiona o registro do ex-procurador.
Segundo o partido, encerrada a eleição presidencial, a expectativa agora é de que o TSE analise o mérito do recurso ainda neste ano. A legenda pretende sustentar a tese de que Dallagnol não poderia ter concorrido ao Senado e busca a anulação dos votos recebidos por ele. O caso ainda depende de decisão da Justiça Eleitoral.
Quase 3 milhões de votos em disputa
Dallagnol foi eleito senador pelo Paraná no primeiro turno das eleições, realizado em 4 de outubro. Ele recebeu 2.904.594 votos, equivalentes a 25,14% dos votos válidos para o Senado, ficando atrás apenas de Filipe Barros (PL), que recebeu 3.148.583 votos.
A eleição, entretanto, não encerrou a disputa sobre sua candidatura.
Em setembro, o Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR) havia aprovado, por quatro votos a três, o registro de Dallagnol e considerado que ele estava em condições de disputar o Senado. A decisão foi contestada por uma coligação integrada pelo PT e chegou ao TSE.
O recurso chegou a entrar na pauta do Tribunal Superior Eleitoral em 8 de outubro. Segundo o próprio TSE, a ação pede o indeferimento do registro de candidatura e a nulidade dos votos atribuídos a Dallagnol. O julgamento, porém, não foi concluído antes do segundo turno da eleição presidencial.
Com isso, apesar de eleito nas urnas, Dallagnol ainda aguarda uma definição definitiva sobre o registro de sua candidatura. A diplomação dos candidatos eleitos deve ocorrer até 18 de dezembro.
Disputa vem desde 2023
O embate jurídico em torno de Dallagnol não começou nesta eleição.
Em 2023, quando exercia mandato de deputado federal, ele teve o registro de candidatura cassado por decisão unânime do TSE. Na ocasião, o tribunal entendeu que o pedido de exoneração feito por Dallagnol do Ministério Público Federal ocorreu enquanto existiam procedimentos que poderiam resultar em processos administrativos disciplinares, situação analisada à luz da Lei de Inelegibilidade.
Três anos depois, ao tentar retornar ao Congresso, desta vez pelo Senado, a discussão voltou à Justiça Eleitoral. O TRE-PR entendeu em setembro que a situação jurídica havia se alterado e autorizou a candidatura, decisão agora questionada no TSE.
É justamente essa disputa que, segundo o PT do Paraná, está por trás da publicação “Deltan, você é o próximo”.
Postagem amplia tensão após eleição
O momento escolhido para a publicação também contribuiu para a repercussão. A mensagem apareceu menos de um dia depois de uma eleição presidencial marcada por uma diferença de aproximadamente 4,4 milhões de votos entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Dallagnol reagiu relacionando a publicação a um movimento de perseguição contra adversários políticos. Em sua manifestação, afirmou que pretende permanecer no Brasil e continuar atuando politicamente.
Já o PT do Paraná sustenta que sua iniciativa está restrita ao processo eleitoral e que pretende cobrar do TSE o julgamento do recurso contra o registro da candidatura do senador eleito.
Assim, embora a expressão “você é o próximo” tenha sido recebida por Dallagnol como uma ameaça e tenha produzido forte repercussão política pelo formato e pelo momento da publicação, o significado oficialmente apresentado pelo PT é outro: a retomada da ofensiva jurídica para tentar impedir sua diplomação e anular os votos que lhe garantiram uma das duas cadeiras do Paraná no Senado.
A decisão sobre a validade da candidatura — e, consequentemente, sobre o destino dos quase 3 milhões de votos recebidos por Dallagnol — caberá ao Tribunal Superior Eleitoral.















