Em uma apresentação recente, em horário nobre, uma performance levou para a televisão aberta referências às religiões de matriz africana.
Axé. Espiritualidade. Corpo e música atravessados por outras formas de fé.
O que poderia ser reconhecido como expressão artística virou alvo de ataques.
E isso diz mais sobre o Brasil do que sobre a apresentação.
Porque antes disso ganhar esse formato, já existia caminho sendo aberto.
Desde as décadas de 80 e 90, Margareth Menezes já levava para o grande público uma música atravessada pelo candomblé, pela ancestralidade e pela cultura afro-brasileira.
Não como tendência. Como expressão legítima.
Outras artistas também vêm ocupando esse espaço sem mediação, sem adaptação, sem concessão.
O que estamos vendo agora não é início.
É continuidade.
E toda continuidade que desloca o centro incomoda.
Porque, no Brasil, nem todas as expressões de fé são tratadas da mesma forma.
Algumas são celebradas. Outras são questionadas. Ridicularizadas. Atacadas.
E isso não é sobre estética.
É sobre poder.
Sobre quem pode existir publicamente sem precisar se justificar.
Como nos lembra bell hooks, a cultura é um espaço de disputa.
E, quando saberes ancestrais negros ocupam a cena, o que está em jogo não é apenas visibilidade.
É legitimidade.
O que estamos vendo não é um caso isolado.
É um movimento.
E todo movimento que rompe com o eurocentrismo e afirma outras formas de existir gera reação.
A pergunta, então, permanece:
por que, ainda hoje, expressões de fé de matriz africana precisam se defender para existir?































