Uma mulher reúne as vizinhas para cobrar iluminação na rua. Outra acompanha uma família que precisa de atendimento. Uma terceira organiza a associação do bairro, procura autoridades, insiste numa resposta. Conhecemos essas mulheres. Muitas vezes, somos essas mulheres.
Nem sempre esse trabalho recebe o nome de política. Mas é política que elas fazem quando transformam uma dificuldade individual numa reivindicação coletiva.
Pensei nisso diante da eleição de Edna Souza, a Miss Preta, primeira mulher negra eleita deputada estadual no Paraná. Antes de chegar à Assembleia Legislativa, ela já era vereadora em Pinhais. Sua vitória se soma ao caminho aberto por Carol Dartora, que, em 2022, se tornou a primeira mulher negra eleita deputada federal pelo estado.
Duas mulheres. Duas trajetórias. Dois espaços de decisão.
Há uma alegria que atravessa essas conquistas. Como mulher negra, eu reconheço o que significa olhar para um lugar de poder e encontrar alguém cuja presença, durante tanto tempo, parecia improvável aos olhos dos outros. Alguém que chegou com seu nome, sua história e os votos de quem acreditou nela.
Carol e Edna não começaram a existir politicamente quando foram eleitas. Já tinham trabalho, experiência, propostas e gente caminhando ao lado delas. A eleição reconhece essas trajetórias e lhes dá instrumentos para participar de decisões que alcançam todo o estado.
É aí que essa notícia ganha tamanho.
Quem organiza a vida num bairro conhece problemas que nem sempre chegam inteiros a um gabinete. Conhece o horário em que o ônibus deixa de passar, a dificuldade de conseguir uma consulta, o medo no caminho de casa. Quando essas experiências entram no debate público, ajudam a definir o que merece atenção, recurso e prioridade.
As mulheres negras sempre tiveram o que dizer sobre o Paraná. Nossa presença na construção deste estado vem de muito antes dessas eleições. Por isso, celebrar Carol e Miss Preta também é reconhecer o trabalho de tantas mulheres que abriram caminhos sem receber um cargo, uma homenagem ou uma linha no jornal.
E é olhar com cuidado para a palavra “primeira”. Ela registra uma conquista, mas guarda o tempo que levou para acontecer.
Não espero que duas mulheres resolvam sozinhas desigualdades construídas ao longo de gerações. Espero que possam exercer seus mandatos com voz, condições de trabalho e respeito. Que suas propostas sejam discutidas. Que outras mulheres negras encontrem apoio para disputar e ocupar esses espaços também.
Hoje, quero celebrar. Há muito trabalho e muita insistência por trás dessas vitórias.
Nós já sabíamos organizar a reunião, construir a reivindicação e cobrar uma resposta. Carol e Edna ajudam a abrir outro caminho: participar da decisão.

















