Imagine uma criança de cinco anos que acorda antes das seis, chega à escola às 7h30 e só sai às 17h. Quando chega em casa, já é quase hora do banho, do jantar e de dormir. Foi essa cena que me veio à cabeça quando a mudança nos horários das escolas de tempo integral de Foz do Iguaçu deixou muitas famílias insatisfeitas. Antes, as crianças ficavam nove horas e meia por dia, e agora a jornada foi reduzida para oito. No meio das reclamações, fico com uma pergunta que parece esquecida: quem está escutando as crianças?
Entendo a preocupação dos pais. Numa sociedade de jornadas longas de trabalho e quase nenhuma rede de apoio, a escola é muito mais que um lugar de aprender. Para muitas famílias, ela é segurança, é comida no prato, é acolhimento. E é justamente por isso que as mudanças na escola de tempo integral podem pesar ainda mais na vida das famílias negras e periféricas, que frequentemente dependem desse atendimento e têm menos alternativas para reorganizar a rotina.
Minha posição é a seguinte: reduzir a jornada pode ser um passo na direção certa, mas a mudança exige mais do que uma alteração no relógio. Uma decisão dessa natureza precisa vir acompanhada de explicações claras sobre seus motivos, planejamento e diálogo com as famílias. Sem isso, corremos o risco de transformar uma decisão administrativa em mais uma dificuldade para quem depende da escola. Mudar horários sem considerar a realidade das famílias é transferir o problema para dentro de casa.
Também preciso olhar para a conta. Nove horas e meia por dia representam 47 horas e meia por semana dentro de uma instituição, e não é só o número que pesa. Mesmo com almoço, descanso e brincadeira, são horas seguidas de convivência coletiva, estímulos, regras e conflitos, em uma rotina na qual a criança tem poucas possibilidades de decidir sobre o próprio tempo. Escola também cansa, e por isso faço questão de distinguir educação integral de permanência prolongada. Ficar mais tempo na escola não significa, necessariamente, viver uma educação melhor. A Meta 6 do Plano Nacional de Educação aprovado em 2014 adotava como referência uma jornada de pelo menos sete horas diárias. Mas esse parâmetro não determina, por si só, a qualidade da experiência escolar. Cumprir uma carga horária não basta. Uma proposta integral de verdade exige profissionais suficientes, espaços adequados, alimentação de qualidade, descanso, brincadeiras livres e respeito aos diferentes ritmos da infância.
Existe ainda uma contradição que quase ninguém questiona. Organizamos o tempo das crianças para atender às exigências do mundo do trabalho, mas discutimos pouco por que esse mesmo mundo deixa tão pouco tempo para a convivência familiar. Não estou culpando mães e pais. O direito ao trabalho e o direito à infância não deveriam disputar espaço. Cabe ao poder público construir políticas que respeitem os dois, sem colocar sobre as crianças o peso das desigualdades sociais.
A discussão não cabe apenas no número de horas que a criança passa na escola. Ela está, sobretudo, em como essa criança vive essas horas. A infância não é treinamento para suportar a exaustão da vida adulta, é tempo de vida e merece respeito, porque o direito à educação não pode custar o direito de viver a infância.













































