Quem decide quais formas de fé merecem proteção Em Foz do Iguaçu, acontecimentos recentes parecem falar de assuntos diferentes, mas não falam. De um lado, a cidade avançou na criação de um protocolo para enfrentar o racismo e a intolerância religiosa nas escolas.
De outro, um terreiro de matriz africana foi alvo de pedradas, ameaças e ofensas motivadas por preconceito religioso, na noite de 21 de junho.
Os fatos não são iguais, mas expõem a mesma pergunta: quem consegue exercer sua fé sem precisar provar antes que merece proteção? Eu conheço essa lógica de perto porque minha relação com a causa antirracista não começou numa teoria.
Começou aos sete anos, quando a diferença ainda doía antes de eu ter palavras para nomear o que sentia. Então, quando vejo um terreiro apedrejado e, dias depois, uma Câmara precisando discutir mecanismos para enfrentar o racismo e a intolerância religiosa, eu não leio isso como notícia distante. Leio como repetição de uma história que já conheço de dentro.
O desfecho das discussões legislativas em Foz representa um avanço importante. Os vereadores derrubaram o veto ao protocolo por 10 votos a 5, permitindo que o texto siga para promulgação.
Na mesma sessão, a Câmara aprovou por unanimidade uma moção de repúdio ao ataque sofrido pelo terreiro. Isso reconhece algo que durante muito tempo ficou por conta do acaso: racismo e intolerância religiosa exigem resposta institucional, não boa vontade individual.
Mas o avanço não apaga a pergunta que ficou pelo caminho, que é por que algumas formas de fé ainda precisam lutar tanto para ter direitos que, em princípio, já deveriam estar garantidos desde sempre.
A liberdade religiosa é um direito. Mas direito escrito não é direito garantido. Ele só existe de fato quando a instituição consegue proteger sem escolher quem merece agora e quem vai precisar insistir, esperar e, às vezes, sofrer violência antes de ser ouvido.
A escola não existe fora da sociedade. As crianças aprendem o que ensinamos em sala de aula, mas aprendem também com o que a cidade permite e com o que a cidade corrige. Aprendem quando um terreiro é atacado, aprendem com a resposta que o poder público dá depois e aprendem, sem que ninguém precise dizer em voz alta, que certos direitos só ganham urgência depois que a violência já aconteceu.
O protocolo antirracista aprovado em Foz representa um avanço real. Ele prevê ações preventivas de letramento antirracista e medidas administrativas diante de práticas de racismo e intolerância religiosa nas escolas, e cria uma resposta que não pode depender apenas da sensibilidade de quem presencia uma violência.
Mas essa resposta não pode terminar no portão da escola. Se a intenção é ensinar respeito à diversidade religiosa para quem ainda está crescendo, precisamos também perguntar como essa diversidade é tratada fora da sala de aula, nas instituições, nas decisões políticas e nas ruas da própria cidade.
Uma cidade não mostra compromisso com liberdade religiosa só quando diz que respeita todas as crenças. Mostra quando uma fé historicamente perseguida deixa de precisar provar, mais uma vez, que merece o mesmo tratamento que as outras já recebem sem esforço.
Foz do Iguaçu deu um passo real nessa direção. Falta ainda garantir que, da próxima vez, a proteção não dependa de um ataque acontecer primeiro.
Pronto. Esta é a versão final corrigida para enviar ao jornal.






































