A felicidade do preto é quase”, canta Emicida em Ismália.
Talvez uma das dores mais silenciosas do racismo seja justamente essa: o quase.
A infância quase protegida.
A infância quase leve.
A infância quase inocente.
Recentemente, uma criança negra de apenas sete anos foi fotografada sem consentimento e transformada em alvo de comentários racistas ligados à escravidão, em Minas Gerais. Sete anos.
Há algo profundamente cruel quando uma criança, ainda no tempo das descobertas, é atravessada por violências que sequer consegue compreender completamente.
Porque o racismo contra crianças negras não começa na vida adulta. Ele chega cedo.
Chega no comentário sobre o cabelo.
Na piada naturalizada.
Na ausência de representatividade.
No olhar de suspeita.
Na necessidade de aprender, ainda muito pequena, que haverá espaços onde sua existência será constantemente questionada.
Enquanto algumas crianças vivem a infância como território de descoberta, proteção e pertencimento, outras aprendem cedo demais estratégias de sobrevivência emocional.
E talvez seja exatamente aqui que a frase de Emicida nos atravessa.
A felicidade do preto é quase.
Porque para muitas crianças negras, a infância também é quase.
Quase livre do julgamento.
Quase protegida do preconceito.
Quase reconhecida em sua humanidade.
O caso ocorrido em Minas Gerais não é isolado. Ele expõe algo maior: a permanência de imaginários racistas que seguem roubando, pouco a pouco, aquilo que deveria ser um direito inegociável de toda criança o direito de simplesmente existir sem violência.
Quando alguém olha para uma criança negra e ainda encontra referências à escravidão, não estamos diante apenas de um ato individual. Estamos diante de uma estrutura que insiste em dizer, desde cedo, quais crianças poderão viver plenamente a infância e quais precisarão lutar para preservá-la.
Talvez a pergunta mais urgente seja:
quem tem, de fato, direito à infância?



































