Em 2018, Bruno Drummond sofreu um acidente de trânsito, fraturou a coluna na altura do pescoço e perdeu os movimentos dos braços e das pernas. O diagnóstico apontava para uma vida em cadeira de rodas. Após o trauma, ele participou de um tratamento experimental com polilaminina. Algumas semanas depois, conseguiu movimentar o dedão do pé. Aos poucos, recuperou movimentos dos braços e das pernas e voltou a andar.
É impossível conhecer uma história dessas e não sentir esperança.
Mas esperança também exige responsabilidade.
A polilaminina é uma substância desenvolvida a partir de pesquisas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em parceria com o laboratório Cristália. Ela deriva da laminina, proteína que, na formulação estudada, é extraída da placenta humana. Seu potencial para o tratamento de lesões da medula espinhal vem sendo investigado há anos.
Em agosto de 2026, a revista científica Spinal Cord publicou os resultados de um estudo inicial realizado com oito pacientes com lesões medulares traumáticas completas. Seis apresentaram melhora de pelo menos dois graus na escala AIS, utilizada para classificar o comprometimento neurológico. Três participantes morreram durante o acompanhamento, mas as mortes foram avaliadas pelos órgãos responsáveis e não foram consideradas relacionadas à intervenção.
Os resultados despertam esperança, mas ainda não permitem chamar a polilaminina de cura. O estudo envolveu apenas oito pessoas, não teve grupo de controle e não foi desenhado para comprovar eficácia. Os próprios pesquisadores reconhecem que ainda são necessários estudos clínicos controlados.
A Anvisa autorizou uma nova pesquisa de fase 1, inicialmente com cinco pacientes. Nessa etapa, o principal objetivo é avaliar a segurança da aplicação. Entre os critérios estão lesão medular traumática completa na região torácica, indicação cirúrgica e trauma ocorrido há menos de 72 horas.
É importante explicar isso com clareza: as 72 horas são um critério do estudo clínico. Não representam um prazo para qualquer pessoa solicitar um medicamento já disponível. A polilaminina continua sendo experimental e não está à venda.
Mesmo assim, esse intervalo tão curto revela uma questão que vai muito além do laboratório.
Setenta e duas horas são iguais no relógio. Na vida, não.
Uma pessoa atendida rapidamente, levada a um hospital com estrutura e avaliada por profissionais que conhecem as pesquisas em andamento pode encontrar caminhos que outra pessoa talvez nem saiba que existem.
Mas o que acontece com quem mora na periferia, no interior ou longe dos grandes centros? E com quem depende de uma emergência sobrecarregada, aguarda por exames ou passa horas esperando uma transferência?
Quem teve menos oportunidades de estudo também pode encontrar mais dificuldades para compreender termos médicos, identificar informações confiáveis e saber quais perguntas fazer diante de uma situação tão grave. Não se trata de falta de interesse. É o resultado de uma sociedade que distribui conhecimento, serviços e possibilidades de maneira profundamente desigual.
Para nós, que vivemos fora do eixo onde se concentram muitos centros de pesquisa, essa discussão é ainda mais necessária.
Quantas horas podem separar um acidente ocorrido em Foz do Iguaçu de uma avaliação especializada? Quem orientaria o hospital? Para onde esse paciente seria encaminhado? Existiria um fluxo conhecido ou tudo dependeria de alguém descobrir, no meio da urgência, quem procurar?
A Anvisa não deve abandonar a cautela. Sua responsabilidade é justamente exigir evidências de segurança antes que uma terapia experimental seja incorporada à prática médica. O problema não está em exigir evidências. Está em deixar a discussão sobre acesso para depois.
Se os próximos estudos confirmarem a segurança e a eficácia da polilaminina, o país precisará estar preparado.
Isso significa informar as equipes de urgência, estabelecer protocolos claros, organizar referências hospitalares, ampliar os centros participantes e garantir transparência sobre os critérios de acesso. Caso contrário, uma descoberta produzida pela ciência brasileira poderá se transformar em possibilidade para poucos: aqueles que moram perto, conseguem informação rapidamente ou chegam primeiro.
A história de Bruno nos permite esperar.
A ciência nos obriga a ter cautela.
E as 72 horas nos fazem uma pergunta incômoda: se essa possibilidade se confirmar, quem conseguirá chegar a tempo?
Uma descoberta só se transforma em avanço social quando alcança também quem sempre chega por último.










































