Foz do Iguaçu gosta de se vender como cidade internacional. Terra das Cataratas, dos turistas, dos hotéis lotados, das luzes da fronteira e dos vídeos bonitos nas redes sociais. Mas existe uma outra Foz que quase nunca entra nas campanhas publicitárias: a das pessoas que dormem nas calçadas, debaixo de marquises, em praças e nos cantos esquecidos da cidade. O 1º Censo da População em Situação de Rua escancarou uma realidade que muita gente prefere fingir que não vê. Segundo o levantamento, 601 pessoas vivem hoje em situação de rua em Foz do Iguaçu, e apenas 16,7% nasceram na cidade.
O dado virou combustível para comentários frios e desumanos nas redes sociais. “Então manda embora.” “Vieram de fora.” “Foz não tem culpa.” Como se a miséria tivesse nacionalidade. Como se a fome fosse menos cruel dependendo do CEP de origem. Como se alguém escolhesse dormir numa calçada olhando vitrines iluminadas enquanto tenta sobreviver até o dia seguinte.
A verdade é que a população em situação de rua cresce em praticamente todas as cidades brasileiras, e Foz, apesar da imagem turística e do dinheiro que circula, não está imune a problemas sociais profundos. É impossível ignorar a contradição. A mesma cidade que recebe milhões de visitantes por ano convive com centenas de pessoas invisíveis aos olhos do poder público e também da própria sociedade.
Gente que perdeu vínculo familiar, emprego, saúde mental, dignidade. Gente que muitas vezes virou estatística depois de ser ignorada por anos. E talvez o mais cruel seja perceber como a população se acostumou com isso. O homem no semáforo vira paisagem. A mulher dormindo na praça vira parte do cenário urbano. O dependente químico vira alvo de piada. A dor humana vai sendo empurrada para debaixo do tapete enquanto a cidade posa para foto em alta definição.
O censo não revela apenas números. Ele revela o fracasso coletivo de uma sociedade que aprendeu a desviar o olhar. Porque nenhuma cidade pode se considerar verdadeiramente desenvolvida quando centenas de pessoas vivem sem teto, sem perspectiva e sem serem vistas como humanas.
E talvez a pergunta mais importante não seja de onde essas pessoas vieram. A pergunta é por que tanta gente perdeu a capacidade de sentir empatia por elas.

















































