O sinal toca, mas o aluno não volta para a sala. No banheiro da escola, em meio ao cheiro de produtos de limpeza baratos, ergue-se a fumaça adocicada de um vape colorido.
Não há rebeldia ingênua nesse gesto, tampouco o ar de transgressão juvenil que um dia caracterizou o cigarro comum.
O que se vê agora é algo mais sofisticado e mais cruel: uma armadilha revestida de cores vivas, vendida como modernidade, mas que se infiltra como veneno lento.
Essa cena, que se repete em escolas estaduais de Foz do Iguaçu e em tantas outras pelo Brasil, já não pode ser tratada como um detalhe do cotidiano escolar. Trata-se de uma epidemia silenciosa, uma corrosão que age por dentro, como cupins devorando a estrutura até o desabamento inevitável.
Desde 2024, a Anvisa proibiu a fabricação, importação, transporte e comercialização de dispositivos eletrônicos de fumar (DEFs). Na letra da lei, cada vape é contrabando puro, produto de mercado clandestino.
Na prática, está nas mochilas, bolsos e mãos de adolescentes como se fosse um simples acessório de estilo.
E aqui está o ponto mais perturbador: aquilo que deveria acionar alarme — um objeto ilegal em posse de menores — transformou-se em mercadoria normalizada, como se estivéssemos diante apenas de uma moda inofensiva.
O adolescente que porta um vape comete ato infracional equiparado à receptação. O adulto que entrega esse dispositivo a um menor comete crime previsto no artigo 243 do Estatuto da Criança e do Adolescente. Ainda assim, seguimos agindo como se fosse apenas mais um adereço colorido.
O vape apresenta-se como um doce, mas age como veneno. Seus sabores açucarados e embalagens vibrantes escondem uma substância que, em cérebros em formação, age como vírus devastador: infiltra-se rapidamente, altera conexões e produz dependência quase imediata.
O que se anuncia como modernidade é, de fato, uma forma sofisticada de regressão: estamos fabricando jovens que perdem memória, atenção e autonomia antes mesmo de alcançarem a vida adulta.
Pior: relatos de adulteração com drogas ilícitas fazem desses dispositivos não apenas instrumentos de dependência, mas também canais diretos de aproximação com o crime organizado. Aquilo que muitos jovens ainda acreditam ser um “brinquedo tecnológico” é, na verdade, o primeiro degrau de uma escada que conduz ao abismo.
Para a escola, o problema não é apenas pedagógico: é jurídico. O uso em ambiente escolar é proibido. Cabe às instituições reterem os dispositivos e acionar as autoridades. Mas o que vemos são gestores exaustos, famílias omissas e autoridades que hesitam. E nessa hesitação, o vício avança.
Devolver um vape a um aluno é como entregar uma arma carregada a alguém que sequer tem idade para segurar um estilingue. Mas, no Brasil, não faltam exemplos de escolas pressionadas a “abafar o caso” em vez de encarar a gravidade do problema.
Enquanto isso, a indústria do vício age como uma hidra. Cada golpe da fiscalização gera novas cabeças, novos sabores, novas cores, novos apelos. É a mesma lógica da indústria do tabaco nos anos 90 — agora mais sofisticada, mais adaptada, mais perigosa.
O vape no banheiro pode parecer uma banalidade. Não é. É a radiografia cruel de uma sociedade que aceita que seus jovens sejam seduzidos por produtos ilegais, viciantes e potencialmente fatais, justamente dentro do espaço que deveria protegê-los: a escola.
A fumaça se dissipa no ar. O sinal toca outra vez.
E a escola permanece imóvel, como se o que se apaga na fumaça não fosse o futuro de seus próprios alunos.
________________
Nota do autor: Este artigo é um alerta a todas as famílias.
O vape não é moda, não é diversão — é crime, é contrabando, é veneno.
Cada dispositivo desses nas mãos de uma criança representa a falência da lei, da proteção e do cuidado. Pais que ignoram, escolas que devolvem e autoridades que se calam são cúmplices da mesma tragédia: entregar o futuro dos nossos filhos à indústria do vício e ao crime organizado.