Na urna, todas as candidaturas parecem ocupar o mesmo espaço. Nome, número, fotografia e legenda. A impressão é de igualdade.
Só a impressão.
Antes de chegar àquela tela, uma candidatura precisa percorrer um caminho caro. Há material para produzir, cidades para visitar, pessoas para contratar, contas para prestar e propostas para comunicar. É preciso chegar até o eleitor. E tudo isso custa dinheiro.
Sem estrutura, alguém pode até ter o nome registrado, mas dificilmente conseguirá ser ouvido.
Por isso, quando falamos sobre a presença da população negra na política, não basta contar quantas candidaturas foram apresentadas. Também precisamos olhar para os bastidores. Quanto cada campanha recebeu? Quando o dinheiro chegou? Quem teve equipe, material e apoio partidário? Quem precisou fazer quase tudo sozinho?
As regras eleitorais brasileiras reconhecem que o ponto de partida não é igual. Para as eleições de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu que pelo menos 30% dos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha sejam destinados às candidaturas de pessoas negras. O mesmo percentual mínimo vale para os gastos de campanha custeados pelo Fundo Partidário.
É uma medida necessária. O dinheiro deve ser utilizado exclusivamente nessas campanhas e, neste ano, os partidos tiveram até 30 de agosto para distribuí-lo.
Mas há um detalhe importante. O cumprimento desse percentual é observado no conjunto das candidaturas partidárias. Isso não significa que o recurso será dividido igualmente entre todas as pessoas negras que se candidataram.
É justamente aí que a discussão fica mais delicada.
Dentro de cada partido, decisões são tomadas. Algumas campanhas recebem mais, outras recebem menos. Experiência eleitoral, força regional, mandato anterior e projeção de votos costumam entrar nessa conta. Faz parte da estratégia política. Mas, quando essa estratégia envolve dinheiro público, a sociedade tem o direito de conhecer os critérios.
Um estudo publicado em 2025 na Revista Brasileira de Ciência Política, intitulado Não é só sobre dinheiro, ajuda a enxergar o tamanho da desigualdade. Na primeira semana da campanha de 2018 para deputado federal, candidaturas de homens brancos receberam, em média, 4,4 vezes o valor dos recursos públicos destinados às candidaturas de mulheres negras.
Não é uma diferença pequena. E também não aconteceu em qualquer momento.
O início da campanha é quando se monta a equipe, se organiza a agenda, se produz material e se planeja a comunicação. Receber dinheiro nessa fase não produz o mesmo efeito que recebê-lo nos últimos dias, quando parte das possibilidades já foi perdida.
Então surge uma pergunta que não pode ser ignorada: quando uma candidatura recebe pouca estrutura, sua baixa possibilidade de vitória já existia ou foi produzida pelas próprias escolhas partidárias?
O argumento da “viabilidade” costuma parecer objetivo. Investe-se mais em quem teria maiores chances de vencer. Mas esse raciocínio pode esconder um círculo difícil de romper. Recebe mais quem parece ter mais chance e passa a ter mais chance justamente porque recebeu mais.
A disputa, nesse caso, pode começar desigual muito antes do primeiro voto.
É importante dizer com clareza: essa reflexão não deve ser dirigida a uma única legenda. Todos os partidos administram recursos, definem prioridades e escolhem quais projetos políticos receberão maior investimento. Todos, portanto, devem permitir que a sociedade examine seus critérios, seus orçamentos e suas contradições.
Fiscalizar essa distribuição não enfraquece as ações afirmativas. Pelo contrário. É uma maneira de verificar se uma conquista prevista na legislação está produzindo efeitos na vida real. Porque uma política pode ser correta no papel e ainda encontrar limites na forma como é executada.
Representatividade não se mede apenas pela quantidade de rostos negros apresentados durante uma eleição. Ela também está no dinheiro que chega, no momento em que chega, na estrutura oferecida e na possibilidade concreta de uma candidatura se tornar conhecida.
Colocar um nome na urna é abrir uma porta. Mas, para saber se houve inclusão política, precisamos observar quem recebeu condições de atravessá-la.








































