Há alguns meses, publiquei uma foto ao lado de quem escolheu caminhar comigo. Junto dela, escrevi um texto sobre cura, paz e felicidade. Era apenas uma foto. Duas pessoas que se amam, compartilhando um momento da própria vida. Nada além disso. Mas aquela publicação me fez refletir sobre algo que talvez eu tenha evitado enxergar por muito tempo: o preconceito ainda está muito mais presente do que imaginamos.
Durante anos, meu pensamento nunca foi assumir publicamente um relacionamento. Não por vergonha de quem eu sou, nem por falta de amor. A verdade é que eu conhecia os olhares. Conhecia os julgamentos silenciosos, os comentários atravessados e aquela sensação de estar sendo observado simplesmente por existir. Eu sabia que algumas pessoas se incomodariam ao ver dois homens de mãos dadas, trocando um abraço, um selinho ou qualquer demonstração de carinho que um casal heterossexual faz sem sequer perceber.
Eu imaginava que isso existia. O que eu não imaginava era que existia tanto.
Foi então que percebi algo importante: quem se incomoda com isso não sou eu. Nunca fui eu. O problema não está em quem ama, mas em quem sente a necessidade de julgar o amor dos outros. Descobri que existe gente profundamente preocupada com a vida alheia, enquanto dedica muito pouco tempo para olhar para si mesma. E talvez essa seja uma das maiores expressões do preconceito: a incapacidade de aceitar que outras pessoas tenham o direito de viver suas próprias histórias.
O preconceito nem sempre aparece de forma agressiva. Muitas vezes ele vem disfarçado de opinião, de brincadeira, de comentário inocente ou de um olhar que diz tudo sem precisar dizer nada. É justamente por isso que ele continua existindo. Porque muita gente acredita que não é preconceituosa apenas porque não ofende ninguém diretamente, mas continua julgando, estranhando e condenando aquilo que não interfere em sua vida.
Como diria meu conterrâneo Nelson Rodrigues: "Aprendi a ser o máximo possível de mim mesmo." E essa frase faz cada vez mais sentido para mim. Porque existe algo que carrego desde o momento em que me percebi gay: eu não vivo, eu reajo. Reajo aos olhares, às expectativas, aos julgamentos e aos medos que a sociedade tenta impor. Durante muito tempo, muitas das minhas escolhas foram respostas a isso. Uma tentativa constante de evitar desconfortos, críticas ou rejeições.
Mas chega uma hora em que a gente cansa de reagir.
E decide viver.
Viver é parar de pedir licença para ser quem se é. É entender que felicidade não deveria ser motivo de silêncio. É compreender que o amor não precisa da aprovação de ninguém para existir. Hoje eu continuo percebendo os olhares e os julgamentos. Eles não desapareceram. A diferença é que deixei de permitir que eles determinem a forma como conduzo minha vida.
Não sei o que o futuro reserva. Ninguém sabe. Mas sei que encontrei alguém que me faz crescer, que me acolhe nos dias difíceis e que me lembra diariamente que a felicidade não deve ser escondida. E se isso incomoda algumas pessoas, talvez o problema nunca tenha sido o meu amor. Talvez o problema seja a dificuldade que alguns têm de aceitar que os outros sejam felizes sendo exatamente quem são.
E eu escolhi não me esconder mais. Escolhi a paz. Escolhi viver. E isso, para mim, já significa muito.


















































