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Home Crônica - Ed Queiroz

O preço de falar o que o poder não quer ouvir

Processar jornalistas e cidadãos não substitui respostas à sociedade.

Ed Queiroz por Ed Queiroz
10 de agosto de 2026
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O preço de falar o que o poder não quer ouvir

Foto: Imagem ilustrativa gerada com auxílio de IA.

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Há um comportamento cada vez mais comum na vida pública brasileira: o agente público que não consegue lidar com críticas. Basta uma denúncia, um questionamento, uma reportagem ou uma opinião contrária para que a máquina judicial seja acionada. Não para esclarecer fatos. Não para corrigir informações eventualmente equivocadas. Mas para tentar intimidar, desgastar e silenciar quem ousou apontar um problema.

Nos últimos anos, aprendi isso na prática. E não, não considero motivo de orgulho dizer que tenho vários advogados me representando em processos. Pelo contrário. É cansativo. É desgastante. Consome tempo, energia e recursos que poderiam estar sendo investidos em trabalho, investigação e produção de conteúdo para a população. Mas quando você exerce um jornalismo crítico, especialmente em cidades onde todos se conhecem e o poder está sempre por perto, descobre rapidamente que existem pessoas que confundem cargo público com imunidade à crítica.

O mais curioso é que muitos desses processos não surgem porque alguém foi vítima de uma mentira. Eles aparecem porque alguém ficou incomodado com uma pergunta inconveniente, uma denúncia fundamentada ou uma opinião que contrariou seus interesses. Em vez de responder aos questionamentos, apresentar documentos ou prestar esclarecimentos à sociedade, escolhem o caminho mais fácil: processar.

Esse comportamento produz um efeito perverso. Além de sobrecarregar um Judiciário que já enfrenta milhares de demandas legítimas, cria um ambiente de intimidação contra jornalistas, comunicadores e cidadãos comuns. A mensagem é clara: “se você falar, terá problemas”. É uma tentativa de transformar o direito de ação em instrumento de constrangimento.

Mas existe um detalhe que alguns parecem esquecer. Quem escolhe ocupar um cargo público também escolhe se submeter ao escrutínio público. A crítica faz parte do pacote. A fiscalização faz parte do pacote. O questionamento faz parte do pacote. Dinheiro público, decisões públicas e interesses públicos exigem transparência pública.

Isso não significa que agentes públicos devam aceitar calúnias ou mentiras. Ninguém está acima da proteção da honra. Porém, existe uma diferença enorme entre uma falsa acusação e uma crítica legítima. Entre uma mentira deliberada e uma denúncia fundamentada. Entre difamação e fiscalização.

E aqui cabe uma reflexão importante. Ao longo dos anos, todos os processos movidos contra mim tiveram o mesmo desfecho: foram arquivados, rejeitados por falta de fundamento ou terminaram com decisões favoráveis à nossa defesa. Nenhum deles conseguiu demonstrar aquilo que seus autores tentavam sustentar. Por outro lado, quando fomos nós que recorremos à Justiça para defender direitos efetivamente violados, as decisões também nos foram favoráveis.

Isso significa apenas que tenho bons advogados? Sem dúvida, tenho profissionais competentes ao meu lado. Mas a resposta não está apenas aí. O principal motivo é que aquilo que faço possui embasamento, documentação, apuração e responsabilidade. Existe uma enorme diferença entre atacar alguém e fiscalizar alguém. Existe uma enorme diferença entre inventar fatos e divulgar informações de interesse público.

O resultado desses processos revela algo maior do que uma simples disputa judicial. Revela que ainda vivemos em um Estado Democrático de Direito. Um país onde a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão, o direito à informação e o direito de opinião continuam protegidos pela Constituição. Um país onde o desconforto de uma autoridade não pode ser confundido com ilegalidade.

A democracia não funciona sem desconforto. Jornalistas fazem perguntas incômodas. Cidadãos cobram explicações. A oposição critica governos. Governos respondem. É assim que deveria ser. O problema começa quando a resposta deixa de ser um argumento e passa a ser uma petição protocolada.

Talvez por isso algumas das figuras públicas mais respeitadas sejam justamente aquelas que entendem a diferença entre crítica e perseguição. Elas respondem, esclarecem, discordam quando necessário e seguem trabalhando. Não transformam cada postagem, cada reportagem ou cada comentário em uma batalha judicial.

No fim das contas, processos podem gerar gastos, audiências e dores de cabeça. Mas eles não apagam fatos. Não eliminam questionamentos. Não substituem explicações. E certamente não fortalecem a democracia.

Uma sociedade livre depende da coragem de seus cidadãos para falar. E da maturidade de seus governantes para ouvir. Mesmo quando não gostam do que estão escutando.

Fonte: Ed Queiroz
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Ed Queiroz

Ed Queiroz

Jornalista, radialista e criador de conteúdo digital. Com uma pegada irreverente e sem filtros, ele mistura humor, crítica social e informação para falar de tudo o que importa (ou pelo menos do que rende um bom bafafá). Apresentador do programa ALÔFOZtv, Ed também comanda o quadro Diário Oficial e solta o verbo em crônicas afiadas que viralizam.

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