O Paraguai está deixando de ser apenas o destino das compras de fim de semana para se transformar em uma alternativa de vida para milhares de brasileiros. E, no centro dessa transformação, está Ciudad del Este, separada de Foz do Iguaçu por uma ponte e por uma realidade econômica cada vez mais integrada.
O fenômeno não é impressão de quem atravessa a fronteira. Os números mostram uma movimentação expressiva. Em 2025, o Paraguai registrou 47.687 pedidos de residência, segundo dados divulgados pela imprensa paraguaia. Brasileiros representaram a maior parcela dos estrangeiros que buscaram regularização no país.
A imagem de pessoas enfrentando filas, passando a noite em busca de documentos e atravessando o Brasil para conseguir residência paraguaia revela algo que merece reflexão: o país vizinho está sendo vendido, para uma parcela dos brasileiros, como uma espécie de saída para os problemas nacionais.
E convenhamos: quando um país começa a ser apresentado como solução para praticamente tudo, é preciso olhar além da propaganda.
O atrativo não é apenas o iPhone
A comparação tributária é um dos principais argumentos utilizados por quem defende a mudança.
O Paraguai possui uma estrutura tributária empresarial mais simples, com alíquotas de 10% para o imposto sobre a renda das empresas, 10% para o IVA e 10% para o imposto de renda pessoal, observadas as regras específicas de cada modalidade.
No Brasil, a tributação empresarial pode alcançar patamares significativamente superiores, dependendo do regime tributário, da atividade econômica e da forma de distribuição dos lucros.
É justamente nesse cenário que empresários, investidores, profissionais autônomos e trabalhadores remotos enxergam oportunidades.
Mas há uma diferença fundamental entre abrir uma empresa no Paraguai e transferir toda a vida para Ciudad del Este.
Uma coisa é aproveitar um ambiente tributário mais competitivo. Outra é acreditar que, ao atravessar a Ponte da Amizade, todos os problemas econômicos e sociais desaparecerão.
A vida real não cabe em uma comparação de alíquotas.
O aluguel já começou a contar outra história
Se existe um efeito concreto dessa movimentação, ele aparece no mercado imobiliário.
Em junho de 2026, uma especialista imobiliária ouvida pela imprensa local relatou que os aluguéis de Ciudad del Este haviam subido entre 20% e 35%, impulsionados principalmente pela chegada de estudantes brasileiros, especialmente aqueles que procuram universidades de Medicina.
A pressão não ficou restrita aos estudantes.
Empreendedores, profissionais e famílias também passaram a disputar imóveis em uma cidade que já possui limitações de infraestrutura e oferta habitacional.
A imprensa paraguaia publicou relatos de aluguéis que chegaram a duplicar ou triplicar em determinados segmentos, acompanhados de especulação imobiliária e aumento do custo de vida.
É a velha e conhecida lei da oferta e da demanda.
Quando milhares de pessoas chegam procurando apartamentos, casas e terrenos, enquanto a oferta não cresce na mesma velocidade, os preços sobem.
O problema é que o proprietário pode comemorar a valorização do imóvel, mas o trabalhador local nem sempre consegue acompanhar o novo preço.
O estudante brasileiro que atravessa a fronteira em busca de oportunidades pode acabar disputando moradia com famílias paraguaias que já viviam naquela região.
E aqui surge uma pergunta incômoda: até que ponto o crescimento econômico beneficia toda a população?
O crescimento não constrói hospitais sozinho
Ciudad del Este está crescendo. Isso é evidente.
Novos edifícios, empreendimentos imobiliários, universidades, restaurantes e serviços aparecem para atender a uma população cada vez maior.
Mas uma cidade não se desenvolve apenas com prédios bonitos, apartamentos modernos e novos negócios.
Ela precisa de escolas, hospitais, saneamento, transporte, segurança e planejamento urbano.
Em abril de 2026, uma organização paraguaia apresentou um levantamento sobre problemas estruturais em escolas de Ciudad del Este. O relatório apontou situações preocupantes, incluindo instalações inadequadas, falta de água em algumas instituições e crianças estudando em ambientes com problemas de infraestrutura.
Isso não significa que o Paraguai não tenha bons profissionais, universidades ou serviços médicos. Muito menos que toda a sua rede pública seja incapaz de atender à população.
O próprio país anuncia investimentos em hospitais e expansão da estrutura sanitária.
A questão é outra: o crescimento populacional está sendo acompanhado pela expansão dos serviços públicos na mesma velocidade?
Essa pergunta também deveria ser feita por quem pretende morar no país.
Antes de trocar o Brasil pelo Paraguai, é necessário considerar onde estarão os filhos, como funcionará o atendimento médico, quais serviços estarão disponíveis e quanto custará manter uma família.
Porque uma coisa é morar perto de uma universidade particular ou de um hospital privado. Outra é depender exclusivamente da estrutura pública.
E, quando falamos de saúde e educação, não estamos discutindo luxo. Estamos discutindo direitos e qualidade de vida.
Foz e Ciudad del Este não são concorrentes
Talvez o maior erro nessa discussão seja tratar a migração como uma disputa entre Brasil e Paraguai.
A fronteira sempre foi um espaço de circulação. Brasileiros trabalham no Paraguai, paraguaios estudam ou procuram serviços no Brasil, empresas atravessam fronteiras e famílias mantêm vínculos dos dois lados.
Foz do Iguaçu e Ciudad del Este fazem parte de uma realidade econômica compartilhada.
O crescimento de uma cidade pode beneficiar a outra. Novos negócios, investimentos, empregos e circulação de pessoas movimentam toda a região.
Mas essa integração também exige planejamento conjunto.
Se Ciudad del Este recebe milhares de novos moradores, Foz também precisa compreender os impactos sobre transporte, comércio, serviços e mobilidade.
A fronteira não pode ser pensada apenas como uma ponte de passagem. Ela precisa ser tratada como um território de desenvolvimento.
O Paraguai pode ser uma oportunidade. Mas não é uma solução mágica.
Não há problema algum em um brasileiro procurar melhores condições de vida em outro país.
Mudar de endereço, abrir uma empresa, investir ou buscar oportunidades faz parte da liberdade individual.
O problema começa quando uma experiência particular é transformada em promessa universal.
O Paraguai possui vantagens reais. O Brasil também possui vantagens reais. E ambos enfrentam problemas que não desaparecem simplesmente porque alguém decidiu mudar de país.
O empresário pode encontrar impostos menores e melhores condições para investir. O estudante pode conseguir acesso a uma universidade. O profissional pode encontrar oportunidades que não estavam disponíveis no Brasil.
Mas a família que chega sem planejamento pode descobrir que o aluguel está mais caro, que a escola desejada não cabe no orçamento ou que determinados serviços exigem deslocamentos e gastos adicionais.
O que funciona para um empreendedor com renda elevada pode não funcionar para um trabalhador que depende de salário mensal.
É preciso abandonar a ideia de que existe uma fórmula única para a felicidade econômica.
A pergunta que fica para a fronteira
O movimento de brasileiros em direção ao Paraguai merece ser compreendido sem preconceitos e sem romantização.
Não se trata de condenar quem decide mudar de país. Tampouco de defender que todos permaneçam no Brasil.
Trata-se de entender por que tantas pessoas passaram a enxergar o Paraguai como alternativa e quais consequências essa transformação produz para quem já vive em Ciudad del Este.
O país vizinho tem uma oportunidade histórica de crescimento. Mas também enfrenta o desafio de transformar esse crescimento em desenvolvimento sustentável.
Porque uma cidade pode ganhar investidores, movimentar milhões e construir edifícios cada vez mais altos. Ainda assim, se seus moradores não conseguem pagar o aluguel, se as escolas não acompanham a demanda e se os serviços públicos ficam para trás, alguma coisa está fora do lugar.
O Paraguai pode ser o novo destino de muitos brasileiros.
Mas a verdadeira pergunta não é quantos estão atravessando a Ponte da Amizade.
É se, do outro lado, existe uma cidade preparada para receber todos eles.


















































