Entre nomeações políticas e oportunidades que nunca chegam, fica uma pergunta: quanto vale a qualificação quando o que parece contar é quem indica?
Por Adriana Menon
Passei a vida acreditando que precisava estudar para conquistar oportunidades. A política me fez questionar se não deveria ter procurado primeiro quem pudesse me indicar.
Essa reflexão não surgiu por acaso. Ela nasceu da experiência de quem investiu anos na própria formação, acreditou no reconhecimento profissional e descobriu que nem sempre a competência é suficiente para abrir determinadas portas.
Recentemente, duas notícias envolvendo a Prefeitura de Foz do Iguaçu chamaram minha atenção.
O ex-vereador Soldado Fruet, após perder seu mandato, foi nomeado para comandar uma diretoria recém-criada na administração municipal. Poucos dias depois, Carla Rosane, candidata não eleita a deputada estadual pelo Partido Liberal, também foi nomeada para um cargo de direção.
Duas nomeações que me fizeram pensar sobre uma prática bastante conhecida na política brasileira: o famoso QI.
Não me refiro ao quociente de inteligência, mas ao velho quem indica
Não questiono a capacidade profissional das pessoas nomeadas. Minha reflexão é sobre os critérios que orientam as escolhas políticas e sobre quantos profissionais qualificados permanecem invisíveis quando não pertencem aos círculos de confiança de quem governa.
Durante dois anos, procurei uma oportunidade de contribuir profissionalmente em outro espaço da administração municipal. Busquei diálogo, apresentei meu interesse e acreditei que minha trajetória, minha formação e meu trabalho poderiam ser considerados.
A oportunidade nunca chegou.
E talvez o mais difícil não seja receber uma resposta negativa. É permanecer esperando por uma possibilidade que nunca se concretiza, enquanto outras oportunidades surgem com uma rapidez que nos obriga a refletir.
Não se trata de acreditar que um diploma garanta automaticamente um cargo. A formação acadêmica não substitui a experiência, a capacidade de gestão ou os critérios necessários ao exercício de uma função pública.
Mas também não podemos naturalizar uma cultura política em que as relações pessoais e partidárias parecem ter mais peso do que trajetórias profissionais construídas ao longo de anos.
A pesquisadora Cida Bento, em sua obra O pacto da branquitude, discute como as instituições podem reproduzir privilégios por meio de redes de identificação, confiança e pertencimento.
Embora a indicação política não seja, por si só, uma expressão desse pacto, a reflexão nos ajuda a questionar quem costuma ser reconhecido, quem circula nos espaços de decisão e quais trajetórias encontram mais obstáculos para chegar até eles.
Como mulher negra, professora e pesquisadora, essa discussão também atravessa minha própria experiência.
Aprendemos desde cedo que precisamos estudar, trabalhar, demonstrar competência e estar constantemente preparados. Mas raramente nos ensinam que, em determinados espaços, o acesso às oportunidades também depende das relações construídas com quem detém o poder.
E isso deveria nos incomodar.
O prefeito General Silva e Luna tem o direito de realizar nomeações para cargos de confiança, respeitando a legislação. Mas a população também tem o direito de questionar quais critérios orientam essas escolhas.
Afinal, quais competências são consideradas? Como são identificados os profissionais preparados? Existe espaço para reconhecer servidores que já demonstraram capacidade e compromisso com o serviço público?
Não espero que a política funcione como uma seleção exclusivamente acadêmica. Espero, porém, que a qualificação profissional não seja tratada como algo secundário diante das relações políticas.
Porque quando o QI parece valer mais que o currículo, não estamos apenas discutindo cargos. Estamos discutindo a mensagem transmitida a uma geração inteira de profissionais que acreditou na educação como caminho para conquistar reconhecimento.
Continuo acreditando na importância de estudar. A educação transformou minha vida e ampliou minha compreensão do mundo.
Mas hoje compreendo que estar preparada e ter acesso a uma oportunidade são duas coisas muito diferentes.
E talvez seja justamente essa distância que a política brasileira precise começar a enfrentar.
Porque uma administração pública não deveria exigir que alguém conheça a pessoa certa para que sua capacidade seja reconhecida.












































