Eu vi a corrente antes de ler a notícia.
Um homem branco segurava uma ponta. Na outra , um homem negro caminhava. Parei naquela imagem. Depois li que os dois eram amigos, que aquilo era uma encenação política, que não pretendiam ofender.
Fiquei pensando no trabalho que sempre sobra para nós: olhar uma cena dessas e ainda ter de explicar por que ela incomoda.
O vídeo foi registrado em 24 de outubro, ato de apoio a Flávio Bolsonaro, no Rio de Janeiro. Os participantes disseram que faziam uma sátira contra Lula. O homem negro explicou que estava caracterizado como um personagem e havia retirado a máscara para beber água. No dia seguinte, o Ministério da Igualdade Racial pediu a apuração do episódio (AQUI).
Li a versão deles. Mas a corrente continuou ali.
Para quem escolheu a cena, ela podia ser um acessório. Para mim, mulher negra, trouxe uma história que conheço. É por isso que “era brincadeira” não encerra essa conversa.
Nós ouvimos essa frase desde pequenas. Depois de um comentário sobre o cabelo. De um apelido que ninguém pediu. De uma imitação que faz os outros rirem enquanto a gente tenta descobrir onde esconder o constrangimento.
Quando reclamamos, somos difíceis. Quando ficamos em silêncio, a brincadeira ganha licença para continuar.
Já não tenho disposição para esse acordo.
Na educação, trabalho para que crianças negras se reconheçam na inteligência, na criação, na beleza e na coragem de quem veio antes delas. Sei o esforço que isso exige. Por isso, me revolta ver uma corrente devolver o corpo negro ao lugar da submissão.
As crianças também veem essas imagens. Ouvem as justificativas, percebem quem ri e quem se cala. Aprendem com o que nós, adultos, aceitamos.
Quando a cena acontece num ato político, a cobrança precisa alcançar quem pede para governar o país. Quero ouvir das lideranças o que têm a dizer sobre isso. Defender a dignidade da população negra também exige desagradar apoiadores. É nessas horas que um compromisso se mostra.
A eleição terminou. A vida que compartilhamos continua.
Aqui em Foz do Iguaçu, essa conversa também nos diz respeito. Está no vídeo que compartilhamos, na piada que deixamos passar, na indignação que diminuímos porque envolve alguém do nosso lado.
O racismo encontra espaço quando o compromisso com os aliados pesa mais que o compromisso com a dignidade das pessoas.
Quero poder olhar para aquela cena e dizer que ela é inaceitável sem ter de suavizar minha voz para merecer atenção. E quero que nossa cidade escute a população negra também quando sua fala deixa de ser elogio e vira cobrança.
A corrente pode ter sido guardada depois da encenação. Nós seguimos com a imagem.
E ainda esperam que a gente ria.














































