No dia seguinte à homenagem.
No Dia dos Professores, chega uma mensagem bonita no celular. Tem agradecimento, tem carinho, tem aquela frase dizendo que o professor transforma vidas. Eu gosto de receber. Nós também precisamos de afeto.
Mas fico pensando no dia seguinte.
O professor volta para a mesma sala lotada. A criança que precisa de apoio continua esperando. O planejamento precisa acontecer entre uma urgência e outra. E quem saiu da escola esgotado ontem nem sempre conseguiu descansar o suficiente para começar de novo.
É difícil caber numa homenagem tudo o que atravessa esse trabalho.
Tem o salário e a cobrança pelo piso. Tem o material que falta. Tem a preocupação com uma criança que precisa de um acompanhamento que o professor não consegue oferecer sozinho. Tem gente tentando ensinar enquanto cuida do próprio adoecimento.
E tem o medo. Medo de sofrer uma agressão de um estudante ou de um familiar. Medo de reclamar e passar a ser tratado como problema. Medo de que a gestão ou a secretaria, que deveriam ouvir, respondam com pressão.
Como professora, me incomoda ver a facilidade com que se pede mais de quem já está no limite. Mais paciência, mais criatividade, mais dedicação. Como se sempre existisse alguma coisa a mais para tirar de nós.
O compromisso do professor não pode servir de desculpa para a falta de compromisso com ele.
Quando uma criança fica sem apoio, o professor tenta encontrar um jeito. Quando falta material, procura uma alternativa. Quando a turma está cheia, divide a atenção como pode. Mas esse esforço não faz desaparecer o que falta. Muitas vezes, apenas impede que a falta apareça para quem olha de fora.
Dentro da sala, ela aparece todos os dias.
Aparece na mão levantada que precisa esperar. Na atividade interrompida. Na preocupação que vai para casa junto com o professor. No cansaço que começa a ocupar até os momentos em que ele deveria estar descansando.
Por isso, neste 15 de outubro, quero receber as homenagens e fazer algumas perguntas. O piso está sendo cumprido? As crianças têm o apoio de que precisam? Quem sofre violência encontra proteção? Quem denuncia uma dificuldade consegue falar sem ser perseguido?
As respostas precisam chegar à escola.
Nós conhecemos o valor de uma palavra carinhosa. Trabalhamos com elas também. Mas sabemos reconhecer quando uma palavra vem acompanhada de cuidado.
Depois da homenagem, fica a sala. É nela que o respeito precisa entrar.












































