“Me avisa quando chegar.”
A frase é tão comum entre nós, mulheres, que quase nem paramos pra pensar nela. A mãe fala pra filha, a amiga fala pra amiga, a gente sai de um encontro e manda mensagem no grupo assim que entra no carro. Compartilha a localização, olha pra trás antes de abrir o portão, escolhe onde estacionar pensando menos na distância e mais em como aquele lugar vai estar quando precisar voltar. Chamamos tudo isso de cuidado, e é. Mas faz um tempo que me pego pensando no tanto de medo que a gente aprendeu a guardar dentro desse cuidado.
Esta semana o Brasil chega à reta final do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, e vamos ouvir falar de tudo que precisa mudar: segurança, emprego, saúde, transporte, renda. Depois as campanhas acabam, as urnas fecham e a vida segue, e eu fico pensando no que vai ser desses problemas quando a eleição terminar.
Uma pesquisa divulgada neste mês colocou números numa coisa que muita mulher conhece sem precisar de estatística. Foram ouvidas 1.500 pessoas de todas as regiões do país, e entre as mulheres, 98% disseram adotar alguma estratégia pra diminuir o risco de sofrer violência no dia a dia. Evitam lugares, deixam de sair à noite, compartilham a localização, mudam o trajeto, avisam alguém do horário e do caminho. Quando quase todas as mulheres de uma pesquisa precisam mudar algo na própria rotina pra tentar ficar seguras, não dá mais pra tratar isso como escolha individual, porque é o jeito como uma parte da população consegue viver a cidade.
E teve um dado que me incomodou ainda mais: 45% das entrevistadas já deixaram passar uma oportunidade de trabalho ou estudo por medo da violência. Aí segurança deixa de ser assunto de polícia. Uma mulher não precisa só estar viva, precisa conseguir trabalhar, estudar, pegar ônibus, voltar a pé pra casa, ir a um lugar de lazer e aceitar uma oportunidade sem que o horário e o caminho de volta sejam a primeira conta que ela faz. E essa conta não pesa da mesma forma para todas. Uma chama carro por aplicativo, outra depende do último ônibus. Uma paga estacionamento perto do destino, outra anda vários quarteirões até o ponto. Uma recusa o trabalho que termina tarde, outra precisa daquele salário e vai assim mesmo.
Por isso me incomoda ver um problema tão complexo caber tão fácil numa promessa de campanha. A mesma pesquisa mostra que 78% das mulheres disseram que propostas de enfrentamento à violência nas ruas e no transporte público influenciariam o voto, e mais de 90% apontaram como importantes melhorar transporte, iluminação e espaços públicos, ampliar as políticas de proteção e enfrentar as desigualdades sociais e econômicas. O que elas pedem vai muito além de discurso em semana de eleição: é luz na rua quando voltam pra casa, ônibus quando saem do trabalho, atendimento quando denunciam, proteção quando são ameaçadas, e uma política pública que continue existindo quando ninguém estiver pedindo voto.
No domingo, milhões de brasileiros vão às urnas. Na segunda, sejam quais forem os resultados e as disputas que ficarem pendentes, muitas mulheres vão voltar a fazer o que já faziam antes da campanha começar: escolher onde estacionar, olhar o horário, esperar o ônibus, compartilhar a localização. E alguém, em algum lugar, vai escrever de novo: “Me avisa quando chegar”.
Não quero que a gente perca o carinho dessa frase. Quero só que a gente volte a estranhar por que precisamos dizê-la tanto.
Eleição tem data para acabar. Os problemas, não.
Talvez seja justamente na segunda-feira que a política precise começar.









































