O que escolhemos não ver
Há ausências que, de tanto se repetirem, deixam de causar estranhamento. E talvez esse seja um dos nossos maiores perigos.
Outro dia, enquanto circulava pelos espaços que fazem parte da minha rotina, uma pergunta aparentemente simples me atravessou: quem não está aqui?
Não pensei apenas nas pessoas que estavam diante dos meus olhos. Pensei justamente naquelas que raramente encontro. Quem não está na universidade? Quem não participa dos espaços onde decisões são tomadas? Quem continua esperando que sua necessidade seja reconhecida como uma questão pública?
Tenho pensado muito sobre as ausências. Não apenas aquelas que conseguimos contar, mas as que aprendemos a naturalizar.
Quando entramos em um espaço e encontramos sempre os mesmos corpos, as mesmas vozes e trajetórias semelhantes, podemos concluir que aquilo é simplesmente a realidade. Mas podemos fazer outra pergunta: que caminhos precisaram ser atravessados para chegar até ali? E, principalmente, quem encontrou barreiras pelo caminho?
Essa pergunta serve para uma universidade, mas também para uma escola, um hospital, um espaço cultural, uma empresa, uma Câmara de Vereadores ou qualquer outro lugar onde a vida pública acontece.
Há algum tempo, por exemplo, comecei a me perguntar onde estão as pessoas surdas nos espaços acadêmicos que frequento. Não afirmo que não estejam lá. Talvez estejam e eu não saiba. Minha experiência individual não pode ser transformada em estatística.
Mas o fato de eu ter demorado tanto para fazer essa pergunta também me ensinou alguma coisa.
Quantas ausências passam diante de nós sem que sequer as percebamos?
Talvez tenhamos aprendido uma ideia confortável de inclusão. Criamos uma possibilidade de entrada e consideramos o problema resolvido.
Mas uma porta aberta não significa necessariamente acesso.
Uma matrícula não significa pertencimento.
Uma lei não significa necessariamente que um direito chegou à vida cotidiana.
E presença física não significa participação.
Isso vale para pessoas com deficiência. Vale para a população negra. Vale para crianças. Vale para mulheres. Vale para tantos grupos que, durante muito tempo, precisaram provar que suas experiências também deveriam ser consideradas quando instituições e políticas públicas fossem pensadas.
Existe uma diferença profunda entre permitir que alguém entre e construir um espaço considerando, desde o início, que essa pessoa também pertence a ele.
Talvez seja por isso que eu tenha tanta dificuldade com a palavra “normal” quando ela é usada para explicar desigualdades.
Não deveria ser normal que alguém precise lutar permanentemente para acessar um direito.
Não deveria ser normal que algumas crianças cresçam sem se reconhecer nos livros que encontram.
Não deveria ser normal que um professor adoeça tentando sustentar sozinho aquilo que deveria ser responsabilidade de uma estrutura.
Não deveria ser normal que o silêncio de um adulto ensine uma criança a suportar aquilo que jamais deveria ter sido naturalizado.
E não deveria ser normal que determinados grupos precisem perguntar repetidamente: há lugar para nós aqui?
Uma sociedade também se revela pelas coisas com as quais aprende a conviver sem se incomodar.
Talvez transformar alguma coisa comece justamente quando recuperamos a capacidade de estranhar.
Estranhar uma sala em que determinadas pessoas nunca aparecem. Estranhar uma política que existe no papel, mas não alcança quem precisa dela. Estranhar uma violência que virou rotina. Estranhar uma ausência que aprendemos a considerar paisagem.
Durante o período em que escrevi neste espaço, muitas das minhas colunas nasceram desse incômodo.
Escrevi sobre educação, racismo, infância, trabalho docente e políticas públicas. Mas, olhando agora para esses textos, percebo que talvez estivesse escrevendo sempre sobre a mesma coisa: sobre aquilo que acontece quando decidimos enxergar o que seria mais confortável não ver.
Esta é minha última coluna no Diário das Águas.
Encerro este ciclo com gratidão pelo espaço e por cada pessoa que leu, discordou, compartilhou ou conversou comigo a partir dessas palavras. Sobretudo, agradeço a quem terminou alguma dessas leituras carregando consigo uma pergunta.
Porque escrever uma coluna nunca foi, para mim, apenas ocupar algumas linhas de um jornal.
Foi uma forma de participar da conversa pública.
Por isso, não quero terminar com uma resposta.
Quero terminar com uma pergunta:
Com o que nós estamos nos acostumando a conviver quando já deveríamos ter decidido transformar?









































